A História

O recém batizado “Projetos Bichos do Gueto”, iniciou-se em 1990, com uma criança de apenas 9 anos de idade; o “Marcelinho”, que ao encontrar animais feridos e esfomeados pela vizinhança onde morava, levava esses animais para dentro de sua casa. Com um pano úmido e muito carinho limpava as feridas. Lá dentro eles eram amados e alimentados.
Em pouco tempo, os vizinhos, já sabiam a quem recorrer, quando o assunto era animais, e por um capricho do destino, seu bairro também incluía uma favela.

Em 2000, ao socorrer um ou outro animal dos moradores da favela, Marcelinho tomou conhecimento dos problemas dos animais que viviam na favela – da miséria, a falta de espaço e o abandono de animais, e de imediato ocorreu-lhe que somente a castração dos animais, poria fim ao ciclo de sofrimento pelos quais os filhotes passavam para tentar chegar a velhice.

Sem internet ou bicicleta, os pedidos de ajuda, por uma carona, ou para comprar uma medicação, eram todos feitos aos vizinhos e conhecidos, em melhor situação financeira.



Já 2003, conseguiu castrar de 35 a 40 animais por mês. Os relatos sobre a vida e os esforços do Marcelinho protetor, trouxeram-lhe simpatizantes e admiradores da causa animal, que passaram a colaborar, e lhe ajudar, na sua luta diária pelos animais.
Em 2004, uma ordem de despejo, deu início a opção de vida escolhida por Marcelo Vieira - ele e a mãe, teriam que ir morar de favor na casa de parentes, e abandonar os animais, mas ele optou por ir morar em um barraco da favela do sapo, e levar consigo os 19 animais que ele havia resgatado das ruas.

Como residente da favela, vivenciava diariamente, os efeitos colaterais da procriação descontrolada dos animais. Relatos chorosos das crianças, que dias antes estavam sorridentes e felizes, comemorando o nascimento de lindos filhotinhos, e que sem mais, nem menos, agora choravam ao contar que eles haviam morrido ou fugido durante a noite.

A realidade era que a mãe ou o pai, ao ver o minúsculo barraco cheio de filhotes que gemiam incessantemente, devido a fome, já que suas mães não produziam leite suficiente para amamenta-los, os pais humanos, se incumbiam de “dar sumiço em toda a ninhada”, colocando-os numa caixa, e levando os para bem longe do barraco. Alguns também se livravam das mãezinhas, quando estas não se separavam de seus bebes.

Nem os idosos escapavam de sofrer por seus animais, a dependência  financeira de parentes ou da aposentaria, era a linha divisória entre a razão e o coração deles, pois uma nova ninhada no barraco, significava menos comida para todos, inclusive o próprio idoso, que já não tinha quase o que comer e nem dinheiro para se alimentar ou aos animais.

Em 2010, Marcelinho foi obrigado pela Defesa Civil, a deixar seu barraco. Seus animais foram hospedados nas casas de amigos, nos quais o Marcelo também dormia dia sim, dia não. Na véspera de natal, o barraco onde ele vivia desabou e foi levado pelo córrego que corta a favela do sapo.
Uma corrente de solidariedade se formou; apelos e e-mails foram lançados em busca de ajuda, de uma contribuição para que Marcelo tivesse um lugar para morar com seus animais, e poder continuar a ajudá-los. Um anúncio de venda de uma pequena chácara em Mairiporã, chamou a atenção de todos.

A chácara estava sendo vendida, em razão do falecimento do filho do casal, que havia comprado a chácara porque queria transformá-la em um abrigo para animais. Com a solidariedade e a contribuição dos conhecidos de Marcelinho, e dos que vieram a conhecer a sua trajetória e sua opção de vida, a chácara foi comprada, e ele pode se mudar.

E mal se mudou, fez uma inauguração sem igual, comunicando aos novos vizinhos, para levarem seus animais para serem castrados dentro de sua chácara. Isso só foi possível, graças a ajuda dos veterinários voluntários da ONG do Projeto Abanar. Nesse dia  60 animais foram castrados, todos vizinhos, pessoas carentes da região de Mairiporã.


Uma hora de carro, de distância entre a chácara de Marcelinho e a favela do Sapo, e sem automóvel e nem coletivo que transite na estrada de terra onde mora, não impediram Marcelo, de continuar indo a favela do sapo, para socorrer os animais e leva-los para serem castrados.


Muitos passam a ignorar os problemas dos moradores e dos animais da favela, quando tomam ciência de que a Prefeitura de São Paulo faz castrações gratuitas, que mesmo sendo um benefício para as pessoas e seus animais, não consegue atingir toda a população de baixa-renda.


É que para castrar um cão ou um gato, é necessário que a pessoa vá até o CCZ e apresente o seu RG, CPF, comprovante de vacinação contra raiva e o comprovante de residência, e as pessoas que moram em favela, não tem nenhum comprovante de residência, e quase nunca possuem o comprovante de vacina.

Os que trabalham não iriam perder o dia de serviço para ir até o CCZ, se cadastrar, porque mesmo que fossem, depois não teriam como levar seus animais a clínica para a castração, pois eles não tem carro, e não é permitido transportar animais dentro dos ônibus, ou dentro de uma lotação. Um outro problema seria também, a total falta de conhecimento dos moradores da favela, com os benefícios que a castração traria a eles, e aos seus animais.

É nesse ponto que o Protetor Marcelo Vieira, se destaca na proteção animal, cobrindo todas as lacunas que dificultam a castração dos animais da Favela do Sapo.

De porta em porta, Marcelo vai conversando com os idosos, com as crianças e com seus pais, explicando pacientemente os benefícios da castração dos animais; de que com isso os animais viveriam mais e melhor, e assim não haveria o nascimento de ninhadas indesejadas, que ocupariam mais espaço, e que consumiriam mais comida, entre outros argumentos. Marcelinho, oferecia a eles, também a solução de como levar os animais para serem castrados.

O Marcelinho, se dispõe a ir buscar os animais na favela, e leva-los à clínica veterinária, e a devolver os animais, após o procedimento cirúrgico já medicados - tudo de graça, para os moradores da favela. Com esses argumentos, os favelados não acham nenhum motivo, para não permitir, que seus animais sejam castrados.

Nesse contexto, tudo seria perfeito, face a abnegação do Marcelinho; de deixar seus afazeres diários com os animais recolhidos em sua chácara, e com deixando sua própria vida pessoal, para  fazer isso. Mas os outros detalhes, tão necessários para o cumprimento dessa missão, não poderiam ser realizados somente pelo Marcelinho. Quem  transportaria os animais, e executaria os procedimentos cirúrgicos necessários para a castração também de graça, já que o programa da prefeitura de São Paulo, contempla que cada morador, só pode castrar até 10 animais.

A solução para transportar os animais da favela, as clínicas tão distantes,  foi a de pagar um taxi-dog, onde até 50 animais são transportados de uma única vez, e disponível o dia todo - desde as 6 horas da manhã (horário que muitos pessoas saem da favela para trabalhar), até a noitinha.

Mas o Projeto CEL, o Projeto Abanar, e a Dra. Fernanda Conde, se solidarizaram com o trabalho do Marcelinho, e passaram a oferecer dentro de suas possibilidades, vagas para a castração dos animais recolhidos por ele. No primeiro semestre desse ano, 390 animais foram castrados, graças a solidariedade das vagas gratuitas ofertadas por estes.

Muito já foi feito por Marcelo Vieira na Favela do Sapo, mas muito mais precisa ser feito, para a melhoria de vida dos animais e de seus tutores – as crianças e os idosos, que não podem contar com ninguém para auxiliar seus animais, que não seja o Marcelinho protetor.

Apesar de todo o trabalho do Marcelinho na favela, ainda persiste o abandono de ninhadas, e de animais idosos ou doentes. Para estes, Marcelo Vieira, só tem a opção de resgatá-los, ou deixa-los morrer ali, já que ninguém além dele, caminha dentro da favela do sapo para ajudar animais.

Os resgates dos animais doentes ou idosos, é sempre acompanhado de despesas veterinárias, de medicamentos e de ração específica, por tempo indeterminado.

Dos animais resgatados, que o Protetor Marcelinho, abriga e alimenta em sua chácara, 80% jamais encontraram lares ou adotantes. A maioria das pessoas se deixa levar pelo encanto dos filhotes, e nem olham para os animais adultos e adolescentes, que seriam tão ou mais brincalhões e carinhosos, do que um filhote que tem ser ensinado.
Mas mesmo os animais, que tem chance de conseguirem um lar, precisam de ajudinha extra, além das mãos do Marcelinho. 

Na cidade de São Paulo o Decreto Nº 49.393 de 11/04/2008, determina que;
§ 4º. Os animais expostos para doação devem estar devidamente esterilizados e submetidos a controle de endo e ectoparasitas, bem como a esquema de vacinação contra a raiva e doenças espécie-específicas, conforme a respectiva faixa etária, de acordo com comprovantes que contenham:

Isso significa que os animais só podem ser doados, se estiverem castrados, vermifugados, e vacinados, tudo as expensas de quem está doando o animal, e é, por esse motivo que muitos protetores e ONGs, cobram uma pequena taxa de adoção, sem a qual é muito dificil, continuarem a dar aos outros animais,  chances de também encontrarem um lar.

Os animais dependem de divulgação nas redes sociais, e precisam frequentar as feiras de adoção, para terem uma chance de serem  notados, dentre tantos outros animais que também estão para a adoção.

Graças ao Projeto CEL – Casa Esperança e Liberdade, que há 10 anos, conseguiu um excelente espaço para montar sua feira de doação de animais, dentro de um renomado petshop da capital paulista, que é frequentado por centenas de pessoas aos finais de semana, os animais que são levados a feirinha, 90% são adotados no primeiro dia, isso sem contar que o Projeto Cel, é uma entre as pouquissímas ONGs, que disponibiliza vagas para outros protetores independentes, como o Marcelinho, em razão de que em seus abrigos , centenas de animais aguardam uma chance para irem a uma feira.

Da vontade de mudar uma triste realidade, ao percurso já transcorrido por Marcelo Vieira, em seu “Projeto Bichos do Gueto”, seu trabalho contém o verdadeiro significado da frase:

 
"Não basta saber, é preciso também aplicar;
não basta querer, é preciso também fazer." (Goethe)

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